Por que faço o que faço?

Autorretratos a pastel, Justino, 2020.
Autorretrato a pastel, Justino, 2020.

Outro dia M.M., experiente artista com quem faço mentoria, ficou muito insatisfeita – irritada, até – com a solução que apresentei para um exercício proposto por ela. Apontou exaustivamente as evidentes fragilidades do trabalho: acabamento tosco, estética não-artística, uso de expressões inadequadas, tipologia pobre (havia palavras no trabalho), narrativa óbvia, que entregava tudo e não deixava espaço para o espectador sonhar por conta própria… Enfim, falta de dedicação para entregar algo melhor acabado, feito com mais rigor (rigor é algo que ela cobra de mim a todo instante).

Tentei argumentar que se tratava de obra conceitual e, como tal, a preocupação com acabamento era secundária. O que importava, mesmo, era a idéia, o “conceito”. E que, neste sentido, às vezes, uma pilha de tijolos tem valor artístico similar (ou quase) à Catedral de Notre-Dame e seu processo de construção que durou centenas de anos.

Bem, ela não caiu nessa. Puxando a minha orelha virtual (estávamos no Zoom), M.M. advertiu-me: ” de que adianta tudo o que falo aqui, se você não considera o que eu digo? Para onde você está indo?” E finalizou a carraspana passando um novo exercício, uma série de perguntas.

As perguntas que M.M. faz são as seguintes: Quais os temas identificados neste trabalho (O malfadado “Noutro Lugar: Marte”) ? Quais as questões que permeiam seus trabalhos? Onde você encontra referências na história da arte para seu trabalho? Coisas que tento responder a seguir.

Quais os temas identificados neste trabalho?

Observando a minha produção artística e fazendo uma espécie de auto-curadoria, encontro (ou imagino encontrar) no que faço uma repetição de temas. São eles:

  • O mais importante acontecimento planetário desde a 2ª Guerra Mundial: a Pandemia de Covid-19
  • A Natureza (e a agressão continuada do homem contra ela)
  • O Rosto Humano (ou seja, o Retrato)
  • O Brasil, sua Cultura, seus (des)caminhos, a vida nas Metrópoles e longe delas
  • Diálogo com a Tradição e a Ruptura na Arte
  • A exploração de múltiplas mídias e suas possibilidades

Quais as questões que permeiam seus trabalhos?

Tratando desses temas vejo que estou constantemente fazendo e refazendo algumas perguntas (ou tentando respondê-las):

  • O mais importante acontecimento planetário desde a 2ª Guerra Mundial: pandemia de Covid-19 – qual tem sido a reação humana à pandemia, que mudou de forma tão radical a nossa vida? Quais são as estratégias de sobrevivência que tem sido procuradas e/ou encontradas? O quanto a pandemia atingiu a alma humana? Como os governos e os poderosos do mundo tem lidado com a pandemia? Minha produção sobre o temas e suas questões pode ser vista aqui.
  • A Natureza (e a agressão continuada do homem contra ela): O quanto as cidades tem se afastado da Natureza? Que brechas a natureza tem encontrado em meio à opressão das cidades? Há beleza nas “ilhas” de Natureza espremidas em meio ao concreto? Isso você encontra aqui.
  • O Rosto Humano (ou seja, o Retrato): De quantas formas eu posso expressar/representar um determinado rosto? Que segredos esse rosto esconde? Como Lucien Freud faria esse retrato? Veja aqui.
  • O Brasil, sua cultura, seus (des)caminhos e a vida nas Metrópoles: O que é o Brasil Interior (em especial, o Nordeste)? O que a BR 101 nos conta sobre o Brasil atual? Como os brasileiros vem lidando com a Grande Pandemia? Qual é a micro-paisagem da Metrópole? (aqui)
  • Diálogo com a Tradição e a Ruptura na arte: O que posso aprender desse quadro enquanto faço um esboço dele (a lápis nos museus, com acrílico, em casa)? Como posso “recriar” essa obra de arte canônica num pedaço de papelão e em 45 minutos (A Santa Ceia, digamos)? Como seria uma natureza morta cubista? Como Andy Warhol faria tal coisa?
  • A exploração de múltiplas mídias: O que sou capaz de fazer (em:desenho, óleo, acrílico, escultura, fotografia, vídeo, manipulação digital etc.), considerando as minhas habilidades e limitações em cada uma dessas formas de arte?

Onde você encontra referências na história da arte para seu trabalho?

Ãs vezes olho para escolas e movimentos (por exemplo, a Arte Pop, os Expressionistas). Às vezes busco grandes artistas (não só pintores) e pesquisadores de arte. Qual é o meu Panteão?

  • Pablo Picasso. Por que? 1) Domina a técnica (e a história da arte). Abre mão dela porque quer, não porque não a domina. Artista não é Estoquista (com todo respeito pelos estoquistas). Empilhar tijolos não basta, creio eu (embora possa ser interessante em alguns momentos). Artista não é catador de detritos, os quais organiza e dá nome intrigante à pilha formada (com todo respeito pelos catadores de reciclados). Quer dizer, pode até fazer isso, mas não por falta de outras habilidades técnicas. Para ser um bom artista considero essencial dominar Escultura, ou Desenho e/ou Pintura, mesmo que decida não usá-las como meio de expressão (digamos que prefira trabalhar com vídeo ou fotografia, ou games). 2) Por experimentar com pintura, escultura, desenho, montagem (assemblage), técnica mista, literatura (poesia), fotografia (dele e de amigos), cerâmica, cenografia etc., etc. Se estivesse vivo, estaria criando coisas digitais, games. 3) Por ser inovador num monte de coisas (um dos inventores de: arte moderna, cubismo, colagem, assemblage, além de renovador da escultura e da cerâmica). 4) Por ser um artista progressista preocupado com os grandes temas de seu tempo (e posicionar-se.)
  • Andy Warhol. Traduz os excessos de produção de bens capitalista do pós-guerra (o american way of life) em discurso artístico. Bota a arte em cima da geladeira. Continua a partir de onde Picasso parou, eu acho.
  • David Hockney. Por experimentar em multimídia, pela longevidade e pela paleta tão solar.
  • Ai Weiwei. Por usar a banalidade das ferramentas e vocabulário da arte contemporânea com grande maestria, inclusive para fazer denúncia social e arte militante.
  • Cindy Sherman. Por usar a fotografia para contar estórias de vidas comuns mas sempre trazendo um mistério. Por fazer autorretratos (fotográficos com manipulação digital) que nos envolvem.
  • Câmara Cascudo. Por registrar a cultura e arte populares e o folclore brasileiros. Sem ele, muito teria se perdido. É um rio onde podemos beber sempre. Uso seus livros cruzando com referências do Tropicalismo.
  • VÉIO. Foi um criador naive (foi?). Passou a fazer grande arte contemporânea, sem a ingenuidade de alguns autênticos artistas contemporâneos. É nosso Henri Rousseau, talvez?
  • Michel Houellebecq. Por traduzir em seus romances a falta de sentido da vida nos países capitalistas avançados do Norte da Europa.
  • El Vibora. Revista que dá aulas de como contar estórias (e de como desenhá-las). A (quase) versão brasileira ANIMAL também influencia.
  • Cildo Meireles. Por fazer grande arte com qualquer material.
  • Beatriz Milhazes. Por manter-se relevante por tantos anos e ter criado um dialeto visual próprio.
  • Romero Britto. Por ter conquistado um lugar ao sol e também forjado um estilo altamente reconhecível. Embora muitos o achem um sub- artísta eu o colocaria como um neo-pop nota 5.
  • Lucien Freud. Mostra a sua alma nos retratos que faz. Nadou contra a corrente abstrata em plena década de 1950, mantendo-se fiel às suas crenças artísticas. Uma grande ética de trabalho.

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